Para otimizar a alocação de budget entre branding e performance, não há número universal: o 62:38 que o IPA encontrou em casos do Reino Unido de 1998 a 2016 serve de ponto de partida, e não de meta, porque os próprios autores admitem que a amostra é enviesada para campanhas bem-sucedidas. A proporção da própria empresa sai de medidas que a leitura de curto prazo não entrega, como o efeito de longo prazo e o retorno marginal de cada lado. Num Marketing Mix Modeling (MMM), o tratamento do patrimônio da marca decide quanto crédito cada lado recebe.

Por que um número único engana na divisão entre branding e performance

Em Effectiveness in Context, estudo do IPA publicado em 2018 sobre casos do Reino Unido de 1998 a 2016, Les Binet e Peter Field encontram a proporção de 62:38 entre construção de marca e ativação em todos os contextos, com a nota de que o valor provavelmente não difere estatisticamente de 60:40. O número vale para o conjunto de casos inscritos no prêmio do IPA, e os autores escrevem que a amostra é enviesada para campanhas bem-sucedidas.

Em Media in Focus, de 2017, os dois registram que o ROMI é geralmente mais alto nas campanhas de curto prazo e chamam isso de muito enganoso, porque elas só ativam vendas de curto prazo e pouco fazem pelo crescimento de longo prazo. A meta-análise de 996 campanhas, 700 marcas e 83 categorias apresentada em The Long and the Short of It resume a mesma tensão: os efeitos de curto prazo são vitais para a eficiência, os de longo prazo geram crescimento e lucro, e métricas de curto prazo sozinhas podem enganar.

Um número de referência não mede a empresa que está decidindo. A faixa por contexto e por setor, com as perguntas de rateio entre canais, fica em como distribuir o orçamento entre canais e objetivos. A pergunta aqui é qual caminho usar para achar a proporção entre marca e ativação com os dados da própria operação.

Quatro caminhos para definir a divisão

  1. Faixa de referência de estudos públicos. É o caminho do 62:38 do IPA: uma proporção observada em muitos casos, usada como hipótese inicial de conversa entre o time de marketing e a liderança, sem medição da empresa.
  2. Leitura de curto prazo. ROMI e atribuição por clique entram aqui. Na Ajuda do Google Analytics, consultada em 30/09/2026, os relatórios de atribuição do Google Analytics 4 (GA4) oferecem três modelos, um baseado em dados e dois de último clique; o de último clique em canais pagos e orgânicos atribui 100% do valor ao último canal em que a pessoa clicou antes da conversão, e nenhum modelo dá crédito a visitas diretas, a menos que o caminho seja composto só por elas.
  3. Marketing Mix Modeling. O MMM é um modelo econométrico que quantifica o impacto incremental de atividades de marketing e de fora do marketing sobre um KPI definido antes, roda sobre dados agregados por campanha e período, e considera marketing online e offline e fatores como preço, promoção, sazonalidade e distribuição, segundo o guia de MMM para analistas do Robyn, da Meta (consultado em 30/09/2026). Dele saem o ROI, o retorno marginal e a curva de resposta de cada canal, e a documentação do Meridian (página consultada em 30/09/2026) descreve o efeito da mídia no KPI por dois mecanismos, o efeito defasado e a saturação.
  4. Experimento. O teste geográfico mede o efeito de um investimento extra em algumas regiões contra as que seguiram no gasto normal, e a documentação do Robyn (consultada em 30/09/2026) trata a triangulação entre MMM, experimentos e atribuição como o centro da mensuração moderna, com o tamanho do efeito, o adstock e a saturação calibrados por dado de campo sempre que possível.

O critério que decide: o que cada lado entrega e em que prazo

O prazo é o primeiro recorte. Segundo Media in Focus, a análise de The Long and the Short of It mostrou que, nos casos do IPA, os efeitos de longo prazo da publicidade nas vendas só passam a dominar os de curto prazo depois de seis meses, e os autores tratam como campanhas de longo prazo as avaliadas por períodos maiores que isso.

O segundo recorte é o papel de cada lado no funil. A documentação do Meridian, na página do MMM de funil completo (atualizada em 05/10/2026), descreve a publicidade de funil superior, como TV e vídeo, criando reconhecimento de marca e demanda ao longo do tempo, e a de resposta direta de funil inferior, como a pesquisa paga, capturando essa demanda para gerar vendas ou conversões imediatas.

Com esses dois recortes, a pergunta que decide deixa de ser “qual lado é mais importante” e passa a ser qual lado contribui com quanto, em que prazo, e quanto rende o próximo real investido em cada um. A regra prática da documentação do Meridian sobre ROI, mROI e curvas de resposta (consultada em 30/09/2026) separa os usos: o ROI avalia a performance histórica, as curvas de resposta orientam o orçamento futuro e o ROI marginal (mROI) avalia o nível de saturação. Se o mROI de um canal está muito abaixo do ROI dele, o canal começa a saturar no nível de gasto histórico.

Faixa de referência, métrica de curto prazo e MMM com experimento: lado a lado

CritérioFaixa de referênciaMétrica de curto prazoMMM com experimento
O que usaCasos reunidos pelo IPA no Reino Unido, de 1998 a 2016ROMI e atribuição por clique, com o último clique do GA4 dando 100% do valor ao último canal clicadoGasto e resultado agregados por canal e período, com controles de sazonalidade e de fatores externos
O que enxerga do longo prazoResume casos do IPA e não mede a empresaSó o curto prazo, cujo ROMI é muito enganoso para quem compara marca e ativaçãoO efeito defasado e, no funil completo, o decaimento composto das duas etapas, que opera num período mais longo
Como trata o efeito da marca na demandaA faixa não trataA visita direta fica sem crédito, salvo caminho composto só por visitas diretasO patrimônio da marca entra como variável intermediária, em duas etapas no funil completo
Principal limiteAmostra enviesada para campanhas bem-sucedidasMétricas de curto prazo sozinhas podem enganar, segundo o IPAEstimativa do modelo, que o experimento ajuda a calibrar

Como achar a divisão da própria empresa com dados

A ordem começa pela contribuição e pelo retorno marginal de cada lado. O MMM estima a contribuição de cada canal ao KPI, a curva de resposta e o mROI, que é o derivado da curva de resposta e equivale aproximadamente ao ROI da próxima unidade monetária investida além do gasto atual, segundo o glossário do Meridian (página atualizada em 17/09/2026). Sem esses dois números, a comparação entre marca e ativação fica na faixa de referência.

O passo seguinte é modelar o efeito defasado e, para a marca, o patrimônio da marca como etapa própria. Na descrição do MMM de funil completo do Meridian, o modelo do estágio 1 mede como o marketing cria o patrimônio da marca e o do estágio 2 mede como esse patrimônio, junto com todo o marketing, impulsiona o KPI final; o efeito indireto do primeiro entra no ROI, no ROI marginal, nas curvas de resposta e na otimização de orçamento. A complexidade extra vale a pena quando o caminho indireto é substancial e as variáveis de confusão são mensuráveis nas duas etapas. Se o caminho for fraco, o viés do estágio único é mínimo.

O terceiro passo é tratar a faixa dos estudos como hipótese. Se a divisão que a empresa pratica hoje, ou a que as medidas indicam, fica muito longe dos 62% de marca do IPA, isso é pergunta para o time, não resposta automática: o número do IPA é de outro país, de outro período e de uma amostra de casos inscritos em prêmio.

O quarto passo, quando viável, é confirmar a mudança antes de ampliar. O Meridian GeoX, solução de código aberto do Google para testes geográficos (documentação consultada em 30/09/2026), aceita desenhos de retenção parcial, de retirada de anúncios e de investimento em regiões específicas, e exige histórico diário do KPI por região. É o mesmo desenho descrito em um teste geográfico de incrementalidade.

O quinto passo é reavaliar a divisão com o tempo, porque, nos dados do IPA, o ponto de equilíbrio muda com o estágio da marca. Quem precisa sustentar a conversa com a liderança encontra o argumento em provar o ROI de branding para o CFO, e a leitura de prazo longo está em os efeitos de branding no longo prazo.

Quando cada caminho faz sentido

A faixa de referência serve para a primeira conversa, quando ainda não há medição própria e o time precisa de uma hipótese para discutir. A métrica de curto prazo serve para decisões dentro da ativação, como remanejar verba entre canais de resposta direta na semana seguinte. O MMM serve para o orçamento anual, sobretudo quando marca, mídia offline e topo de funil pesam no total. O experimento serve quando o modelo e a métrica de curto prazo discordam, ou quando a mudança é grande o bastante para justificar o teste antes de a verba sair do lugar.

O MMM de funil completo é uma variante do caminho do MMM, e não um caminho separado: ele faz sentido quando o caminho indireto entre marketing de marca, patrimônio da marca e vendas é substancial e os confundidores são mensuráveis nas duas etapas. Quando esse caminho é fraco, o viés do modelo de estágio único é mínimo, segundo a documentação do Meridian.

O que perguntar antes de decidir

  • O modelo separa o efeito de curto e de longo prazo?
  • Como o patrimônio da marca é tratado dentro do modelo?
  • O retorno marginal de cada lado é estimado ou presumido?
  • Quem confirma o resultado com experimento?
  • Quem desenvolveu o modelo também vende a mídia que ele mede?

Onde a Purple se encaixa

A Purple Metrics é uma parceira de Marketing Science que combina software de Marketing Mix Modeling (MMM), metodologia própria e especialistas para ajudar o marketing a entender o retorno dos investimentos em cada canal, prever resultados e tomar decisões que impactam o negócio. A Purple foi criada em 2021, e o modelo dela considera contribuição, lag, halo, saturação e otimização, segundo a página de ciência da Purple. O halo, na descrição da própria página, “rastreia a marca até a demanda lá na frente”.

O modelo trabalha com dados agregados, sem depender de rastreamento individual por cliques, UTMs ou cookies, e a página de ciência da Purple descreve que ele permite incluir variáveis que não geram clique nenhum, como mídia offline, canais digitais de topo de funil, OOH e PR. A empresa começou como software de pesquisa de marca e, em 2024, parou de vender esse produto para focar em modelagem, segundo o blog da Purple (01/03/2024); hoje o efeito da marca é medido dentro do MMM.

No case da Liv Up, a participação do TikTok no investimento de mídia passou de 1% para 3,5% em janeiro de 2026 e depois chegou a 6,5%, segundo a Exame (25/09/2026). Segundo a Liv Up, à Exame (25/09/2026), o custo de aquisição ligado às buscas pela marca caiu 50%. O caso mostra um canal de topo e meio de funil ganhando espaço, e não uma proporção a copiar.

Para entender como o histórico da sua empresa pode orientar a divisão entre marca e ativação, dá para agendar uma conversa.

Perguntas frequentes

Que variável representa a marca dentro do modelo?

Na documentação do Meridian, é a variável de patrimônio da marca: uma variável intermediária de demanda ou de integridade da marca, como o volume de consultas da marca no Google ou a consideração da marca, impulsionada pelo marketing de marca. O volume de consultas do Google com marca é uma variável comum no MMM de funil completo do Meridian, por ser mediador para o marketing de marca e fator de confusão para o de funil inferior, especialmente os anúncios de pesquisa; a estrutura é genérica e aceita qualquer métrica intermediária de integridade da marca que se encaixe no gráfico causal presumido.

O que é um MMM de funil completo e quando ele vale a pena?

É um MMM em duas etapas, descrito na documentação do Meridian: o modelo do estágio 1 mede como o marketing de marca cria patrimônio da marca, como o volume de pesquisa orgânica, e o do estágio 2 mede como esse patrimônio e todo o marketing impulsionam o KPI final, com o efeito indireto incluído no ROI, no ROI marginal, nas curvas de resposta e na otimização de orçamento. Segundo a documentação, a complexidade extra vale a pena quando o caminho indireto é substancial e as variáveis de confusão são mensuráveis nas duas etapas; se o caminho for fraco, o viés do estágio único é mínimo.

O retorno marginal da marca entra na mesma conta que o da performance?

No MMM de funil completo do Meridian, entra: a documentação diz que o efeito indireto do marketing de marca sobre o patrimônio da marca é incluído em estimativas como o ROI, o ROI marginal, as curvas de resposta e a otimização de orçamento. O ROI marginal é, segundo o glossário do Meridian, o derivado da curva de resposta, aproximadamente o ROI da próxima unidade monetária investida além do gasto atual; no canal de marca, ele já carrega o efeito indireto.

A divisão ideal entre marca e performance muda com o tempo?

Nos dados do IPA, muda. Em Effectiveness in Context, Binet e Field encontram, no lançamento de uma marca nova, um equilíbrio pesado em ativação, de 35:65 nos dois primeiros anos, que passa a 57:43 depois, e avisam que, por causa do tamanho da amostra, a mudança pode estar subestimada. O ideal de marca na era digital como um todo é de 62%, e subiu para cerca de 76% no período mais recente que os autores conseguem modelar, em parte pela presença crescente de setores que exigem mais marca, como serviços financeiros.

Em resumo

  • Não há número universal para a divisão entre marca e ativação: o 62:38 do IPA é ponto de partida, com a ressalva dos autores sobre a amostra de campanhas bem-sucedidas.
  • A divisão da própria empresa sai da contribuição, do efeito de longo prazo e do retorno marginal de cada lado, não do ROMI de curto prazo, que engana na comparação.
  • O crédito entre funil superior e inferior depende de como o modelo trata o patrimônio da marca: sem essa variável, os canais de funil inferior recebem crédito por uma demanda que não criaram.
  • Quando viável, o experimento confirma a mudança antes de a verba sair do lugar, e o equilíbrio é reavaliado com o tempo.
  • Na Purple, o halo é uma das peças do modelo e rastreia a marca até a demanda lá na frente.

Equipe Purple — conteúdo da Purple Metrics, parceira de Marketing Science. Atualizado em outubro de 2026.